quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Alguns passarinhos começaram a cantar mais alto e eu nunca soube como seu canto era bonito.
Anunciavam o início da manhã e me diziam que o sol ja estava a nascer. Jogando seus raios dentre os prédios, fazendo sombras e pintando o meu céu.
Igual ao que uma vez pintei em um retrato. Um céu que eu assistia acordar.
E como no dia em que criei meus sonhos, e como no dia em que os vi voar, ouvi a canção do dia nascente e não controlei um sorriso.
(Como a surpresa sempre é bela ...)
Todos ainda dormiam. As janelas permaneciam fechadas, as portas trancadas e os olhos pregados provavelmente sonhando ilusões. Ninguém via o tempo passar e ninguém sentia o vento que levava as estrelas embora.
Mas eu estava ali, vendo tudo acontecer.
Cada vez que desfocava meus olhos de minha caneta e papel, meu céu ja estava um pouco mais claro. Como se o sol aos poucos, pedisse licença pra entrar.
Lhe dou licença a entrar.
Lhe abro a porta, se necesáario, e se quiser até lhe suplicoso para ter a certeza de que todas as minhas manhãs comecem felizes assim.
domingo, 6 de dezembro de 2009
Devolução não é possivel, mas é possivel me descartar, deixar de lado,
pegar outra e por no meu lugar.
Fico aqui por um momento, até o segundo em que me enxerga, pois quando chega
o esperado, se torna cego e exagerado.
Eu não sou mais visível e minha voz se torna falha, outra se sobressai
e pelo teu rosto vejo que você já não me escuta mais.
É engraçado como tudo parece ser real, como parece ser concreto até a quebra.
Onde eu sumo, desapareço diante de seus olhos.
Mas eu estou aqui.
Você não me vê?
Estou parada bem na sua frente, abanando as mãos e tentado gritar.
Mas seus olhos, isso eu vejo bem, estão focados em outra figura.
Eles a seguem como se não pudessem perder um só suspiro teu.
E aí o meu muro cai e eu vejo que não sou só eu.
Não sei mais te acreditar e já não sei se quero que acredite em mim.
Tua repulsa torna triste o meu carinho e faz dos meus sentimentos falsos.
Não faça isso comigo, eu não mereço.
Você não vê?
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Para os escritores que viveram naqueles tempos, foram momentos gloriósos, onde seus trabalhos eram reconhecidos e tidos como regra.
Podiam matar-se sem medo, em letras de tinta e papéis manchados.
Mas o que houve com os ponteiros dos relógios? Que correram, correram e deixaram o vento amargo levar esses escritores embora. Seus ditos continuam aqui e há quem os apressie, mas e aqueles que se assemelham em sua escrita? E os escritores ultra-românticos que por um infortúnio do tempo nasceram em datas erradas?
Suas palavras deixam de ser bonitas pelo contexto no qual agora vivem. Já não podem mais ser belas, pois o belo agora, é outro.
Mas que enorme injustiça é essa? Perdem o direito de se expressar por terem se atrasado alguns anos. Suas frases sempre serão montadas do seu próprio jeito de montar e as peças encaixadas de um único jeito de encaixar. Não há como mudar a emoção de um poeta romântico.
Para onde foi a beleza às palavras ditas? Para onde foi o choro que o tempo não conseguiu curar? E as cicatrizes que ninguém costurou?
Vejo as marcas de um passado dolorido e sinto dores do que não foi terminado, mas não posso lhe explicar isso pois não sei redigir no formato de letra que você sabe ler.
A incapacidade de dizer, a prisão que abriga minhas palavras, faz com que meu dito seja escasso, e quando o é, ao invés de ser valorizado, é simplesmente jogado ao lado, assim como todas as conjugaçoes do verbo 'morrer' em um dicionário de um poeta ultra-romântico que nasceu no tempo errado.
domingo, 15 de novembro de 2009
Eu te esperei enquanto os ventos brincavam com o meu cabelo, tentando jogá-los na minha cara para
que eu não mais pudesse ver a dor que estava diante de meus olhos.
Eu te esperei enquanto as estrelas brincavam de correr, para não serem pegas pela solidão, assim como eu
sempre era.
Eu vi as estrelas fugirem de mim.
Como se tivessem medo de chegar perto demais.
Naquela noite o céu ficou completamente negro, salvo a lua que logo se ergueu ali.
Eu te esperei enquanto o sol acordava e os primeiros raios de luz tocavam minhas pálpebras.
Eu te esperei enquanto o dia caminhava e não me chamava a caminhar com ele.
Eu te esperei enquanto meus pés queimaram ao tocar o solo quente.
E logo voltaram a mim, com medo de pisar ali de novo.
Mas já queimados, suportariam a dor, e eu os fiz cegos para continuar andando.
Vi o sol ir embora, feliz por poder enfim descansar.
E eu, aliviada, por poder me esconder nas águas escuras que via se aproximando.
O céu logo escuresceu novamente e a lua ergueu-se.
A escuridão me fazia segura, e ali nada poderia me alcançar.
Exceto você.
Eu te esperei por mais alguns milênios. Alguns séculos correram e eu mal vi o tempo passar.
Dia e noite se convertiam e confundiam-se enquanto eu estive parada ali.
Agora, a noite tomou conta novamente. Consigo escutar as estrelas zombando de mim.
Volta e meia,a lua se aproxima e tenta me ajudar.
Mas não consigo alcanca-la e sua ajuda fica longe demais.
Eu te esperei enquanto mil sóis se punham e eu não pude fazer nada para impedi-los de ir embora.
Eu te esperei enquanto a lua não me quis mais e se escondeu atras da montanha.
Eu te esperei enquanto minhas palavras voaram com o vento e fiquei sem voz.
Eu te esperei enquanto as estrelas cansaram de zombar de mim e também se puseram distantes.
Eu te esperei até cansar de mim mesma e abandonar uma parte minha, só pra continuar a te esperar sozinha,
sem ter que me preocupar com o amanhã.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Tive medo, como afinal das contas, sempre tenho.
Senti uma mão afagar meu ombro, e de repente senti uma onda de calmaria.
Alguém estava ali.
Dei um passo e olhei para trás, vi uma sombra se remexendo.
Não precisei prestar atencão, eu já conseguia te identificar.
E eu ria, eu ria, eu ria.
Sem coragem de agora parar.
Não que os outros não sejam, mas achei necessário fazer uma dedicatoriazinha nesse aqui;
para uma pessoa muito especial.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
A Conversa
Um dia, como quem não quer nada ela chegou de malas prontas. Não sei da onde ela vinha, e se é que ela vinha de algum lugar, mas mal sabia eu, que chegara para ficar. Logo se acomodou e desfez sua mala em cima de mim e de mais um. E por aqui ela ficou, sem nem pedir licença para entrar.
Ela mais dormia do que qualquer outra coisa durante uns tempos, mas aí começou a nos sufocar com força total. Sua freqüência aumentava de acordo com os ponteiros passando, os dias virando, as noites caindo e as vidas mudando. A conversa acabou se acomodando na gente. E de tanto ela se acomodar, a gente também acabou de acomodando nela.
Era tão gostosa que muitas vezes precisava ir embora, mas não ia. Um dia tanto eu, quanto o outro, tínhamos afazeres para resolver e uma pressa pinicando nossas cabeças, mas a conversa veio de um jeito tão inusitado, que não conseguimos prosseguir e tivemos que parar por alguns milênios para conversar aquela conversa tão gostosa.
É engraçado como ela é. Quando eu a quero, a espero e almejo, ela quebra minhas expectativas e vem à mim como a coisa mais ordinária possível. E quando é sem querer, quando me pega desprevenida ao virar uma esquina e voltar para casa, vem à mim como a felicidade do restante do dia.
Às vezes ela tem gosto de sol, às vezes tem gosto de chuva.
Às vezes tem gosto de gente grande e às vezes de criança pequena.
Ela assume todas as formas possíveis e nós também nos fantasiamos junto a ela.
A conversa cativou parte tão grande que já fez um quarto e desfez as malas. Agora, eu,ela e ele temos a certeza de que ela não tem intenção nenhuma de ir embora.
para outra pessoa muito especial.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
E claramente, você está no papel principal.
O meu papel também é importante, mas secundário. E juntos, fazemos um par.
As falas são ótimas e as cenas incríveis. Mas eu tenho a pequena sensação de que fui escolhida ao acaso.
Não como se eu não me encaixasse bem no papel, eu sou perfeita para ele. Mas tenho a sensação de que se fosse qualquer outra, seria igual.
Me parece que as falas continuariam as mesmas, e as cenas, tão maravilhosas quanto antes.
Que os aplausos continuariam sendo de pé, e as palmas tão escandalosas como sempre.
No momento em que entrei no palco, um nervoso tremendo me subiu a espinha.
Se precisasse comer, não conseguiria, pois ele dominava também meu estômago.
Me acalmei e prossegui a cena.
Esta parte eu interpretava sozinha,
só te esperando entrar.
E quando te vi saindo pela coxia, todo o nervosismo voltou.
Tudo sempre fora único para mim.
E a peça só tinha o sucesso que tinha porque era ao seu lado.
Você nunca foi substituto ou um simples ator coadjuvante.Você sempre foi o meu personagem principal.
Me postei ao seu lado durante a cena final e quando as cortinas se fecharam, tive a sensação de que eu não era única.
Não como se você fizesse outras peças em vidas alheias, ou que protagonizasse alguma do jeito que protagoniza a minha. Mas que meu papel indefinido na tua, não tinha minha cara.
E sim uma máscara, podendo ser posta em quem fosse.
Você é meu único. E o único rosto que eu via quando as cortinas novamente se abriam.
Mas tenho a impressão de que para ti, não importa com quem contracena. E que, se não eu, poderia ser outra protagonizado ou ocupando papel de coadjuvante na sua vida. O que for.
Esta peça, que apresentamos escondidos, só fica disponível à nós dois. Eu a releio sempre que possível, só para te ter por um tempo a mais.
E mesmo tendo a impressão de que não faria diferença se não fosse eu,eu não consigo deixar de sentir meu estômago borbulhar quando você entra no palco.